Filme realizado com imagens registradas na segunda edição da Caravana da Memória Cabana, ocorrida em Janeiro de 2012, nas comunidades de Cuipiranga do Tapajós, Vila Amazona e Guajará (Santarém, Pará). Esse evento teve como objetivo celebrar o aniversário da tomada de Belém pelos cabanos, ocorrida em 07 de Janeiro de 1835. A cabanagem foi um movimento insurgente advindo das bases da sociedade amazônica, nascido em função das profundas assimetrias de poder estabelecidas na época do período colonial. O encontro é fruto do empenho dos movimentos sociais santarenos em manter viva a memória da cabanagem, considerada por alguns estudiosos como a maior revolta popular da história da América Latina. Maiores informações sobre os estudos e ações realizadas sobre a cabanagem na região, ver o blog: http://caravanacabana.blogspot.com/
Who cares
Seja um bom leitor e se indigne com esses disparates postados aqui!
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ela pega mais uma bebida e acende algum cigarro, caminha pelo corredor ouvindo aquela música “come on, come on, come on, come on, now, touch me, baby” ela canta junto... Dança na frente do espelho, de forma levemente sensual, e está bem. Caminha até a porta, coloca um sorriso falso no rosto e cumprimenta quem está chegando, “malditas visitas” sussurra para si mesma e prossegue sorrindo falsamente, aquele sorriso forçado propositalmente, porque é de sua vontade que percebam que não vieram em boa hora. Olha para o gato que brinca com a borda da toalha da mesa e por um tempo se esquece de onde está ou das visitas sentadas no sofá cor de vinho... ela não sabe quantos minutos se passaram desde que eles chegaram, estão ali desde quando? Horas, dias, meses, anos? E se pergunta se ainda tem bebida no seu copo, olha paras mãos, e la está um copo cheio, é, apenas alguns minutos. Eles conversam entre si, “sobre o que estão falando?” ela tenta se concentrar naquelas gesticulações, mas depois de continuar sem entender nada, desiste. “Yeah, yeah” ouve no fundo, “com licença” ela pede e se levanta, sem esperar a resposta, está pouco se fodendo se eles desejam que ela continue ouvindo (apenas ouvindo, porque não prestou atenção em absolutamente nada) o que quer que estejam falando, aumenta o volume e “piece of my heart” está rolando, naquela voz rasgada e sexy de uma das suas cantoras preferidas, balança a cabeça no ritmo da música e logo está balançando o corpo de um lado para o outro, sem se importa com quem está olhando ou não. Canta. Dança. Bebe. Acende outro cigarro. As visitas foram embora, sem se despedir. A maioria das pessoas a chateiam profundamente, ela tenta não ficar brava, já que estas pessoas não têm culpa de serem tão desinteressantes, mas ela não as quer por perto, ora. Aquela garrafa de bebida, o cigarro, a música, são para ela tão mais atraentes, liga para algum amigo com quem gosta de conversar, e logo estão nus, ouvindo boas musicas, logo mais estão fazendo sexo sem compromisso, apenas porque tiveram vontade. E ela está bem. Continua ouvindo a música, aumenta mais ainda o volume e continua sem a roupa porque gosta de dançar nua pelos corredores da casa, e ela está feliz, aquilo ali lhe faz feliz. Muitas pessoas não gostariam do comportamento dela, muitas pessoas achariam imoral e absurdo, mas isso só em um lugar onde a felicidade dela não importaria,no meu mundo não.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Entropia
O dia tinha sido todo uma imensa chatice. Tinha assistido dois
filmes que não me impressionaram nada, depois resolvi ler um livro.
Li o primeiro capítulo e fiquei mais entediada ainda. A noite já
estava vindo, então resolvi que não ia ficar em casa esperando que
alguma coisa nova acontecesse. Vesti as roupas mais loucas que tinha,
pus a maquiagem de maneira a ficar o mais extravagante possível e
fui. No caminho recebi mais uma mensagem daquele garoto chato que
vive me dizendo coisas sem nexo – idiota. Lá encontrei com as
minhas amigas de sempre e fizemos o de sempre: nada, o mais do mesmo
costumeiro.
Fiquei agoniada. Ouvia minhas amigas com o máximo de atenção, mas
não entendia nada do que elas diziam. Depois decidi que ia pra casa.
Definitivamente, era um daqueles dias que eu deveria ter passado na
cama deitada. Fui por um caminho mais longo, porém que não passava
muita gente. Chorei. Entrei num conflito existencial sem nem saber
qual era o motivo. Senti falta de alguém. Outra mensagem daquele
garoto – idiota. Talvez não sentisse falta de ninguém.
Quando estava chegando em casa, minha vizinha dá as caras na frente
da casa dela. Ela estava pronta para sair e ia só. Falei “oi” e
então ela me responde com uma pergunta brincalhona:
- Chegar às onze da noite, aplicadinha como você está, lhe trará insônia. Vem comigo?
- Pra onde?
- Não sei, mas vamos sair.
Mais cedo eu não queria sair, mas também não queria ficar em
casa. Mas agora, estranhamente, eu queria fazer qualquer coisa. Não
liguei para a simplicidade e até mesmo a falta de interesse do
convite. Fomos então. A verdade é que não tinha lugar nenhum pra
ir. Ela fumava e me espantei com isso. Nunca tinha ficado perto de
alguém que fumasse e só o que eu sabia é que fumar causava câncer.
No entanto, sabia que alimentos transgênicos também causavam câncer
e era apenas disso que eu me alimentava. Ah, pedi um cigarro a ela.
Quis saber a sensação, quis viver o momento.
Ela ficava surpresa com cada descoberta minha e eu notava isso no
semblante dela que demonstrava mais e mais interesse por mim.
Estávamos numa praia a noite com as amigas dela. Eram inteligentes,
interessantes, lindas.
Num instante em que eu ria prazerosamente minha vizinha,
inexplicavelmente, me beijou no rosto. Fiquei fria, sem saber o que
fazer. Logo o beijo chegou na minha boca. Senti a mão dela passar
entre as minhas pernas. Parecia que meu coração ia explodir. Mesmo
se eu tivesse bebido uma cerveja escocesa eu não teria achado aquilo
normal. No entanto, depois, naturalmente, eu vi que não estávamos
fazendo nada errado. Eu a amava e amava todas as amigas dela também.
Quando eu cheguei em casa pensei que eu podia ser lésbica.
Entretanto, eu continuava a gostar de homens. Senti que eu podia ter
todo mundo. Não entendia qual a necessidade de classificar as
pessoas. Percebi que, pra mim, aquilo não tinha importância
nenhuma. Depois daquela noite nada ia voltar a ser como antes –
entropia.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
VI Encontro dos povos indígenas do Baixo Tapajós e Arapiuns: uma reflexão “libertina”

Durante os dias 27,28 e 29 deste Janeiro, parte do Coletivo Cravos da Libertinagem esteve presente no VI Encontro dos Povos indígenas do Baixo Tapajós e Arapiuns, que aconteceu na Aldeia de Muratuba, uma das comunidades assentadas no interior da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no município de Santarém, Pará. Neste post, uma análise sintética do quadro geral observado durante os dias do evento, feita por mim, Wyncla, um dos integrantes deste Coletivo.
O encontro contou com a presença de representantes dos 12 povos que compõem o Conselho Indigenista Tapajós – Arapiuns (CITA), entre os quais fazem parte, apenas para citar algumas, as etnias Tapajó, Tupinambá, Borari, Cumaruara e Cara Preta. Diante do que se pode observar nos trabalhos encaminhados durante o encontro, a organização dessas comunidades se orienta para a formalização do reconhecimento de sua condição indígena. Essa luta é, nada obstante, atravessada pelo laborioso processo de identificação e demarcação das terras ocupadas por essas aldeias, assim como pela busca das garantias e direitos imanentes ao reconhecimento positivado da indianidade desses povos – direitos esses relativos aos bens e serviços especiais que aos indígenas são previstos pela Constituição Federal, no que se refere, principalmente, à saúde e à educação diferenciadas que o Estado deve ofertar a essas comunidades.
Rinaldo Arruda, em sua síntese acerca da situação dos povos tradicionais do Brasil, afirma que a colonização européia, tal como todos os outros processos de exploração econômica e de uso e ocupação da terra no Brasil, favoreceram um processo de miscigenação racial e cultural pautado pela marginalização das minorias étnicas, assim como pela espoliação, não só territorial, mas também identitária de indígenas e negros africanos. Os grupos humanos surgidos desse processo, que não eram mais indígenas e nem africanos foram, paulatinamente, compondo a parcela sertaneja e silvícola da população brasileira, assentada nos longínquos das florestas úmidas da Região Norte e do sertão árido nordestino, nas margens das instancias sociais, políticas e econômicas onde se estabelecia o centro do poder no país. Nesse quadro, criou-se, e vem se reproduzindo por muitas gerações, um povo mestiço, sem raízes culturais profundas, mas que, ao mesmo tempo, preserva elementos herdados por seus ancestrais, como aspectos de sua cosmovisão do mundo, determinadas técnicas de manejo dos recursos naturais, conhecimento tradicional relativos à homeopatia e, principalmente, práticas econômicas de base familiar. Nesses grupos, Arruda diz que podemos observar a constituição de uma categoria sociocultural que em sua obra ele passa a tratar como “sociedades de cultura rústica”.
Através de uma observação superficial, os povos do CITA são grupos humanos passíveis de serem classificados dentro da categoria proposta por Arruda, ou seja, como integrantes de sociedades culturalmente rústicas – grupos que são tradicionais, mas não necessariamente indígenas, haja vista os elementos fenotípicos das configurações socioculturais desempenhadas por essas comunidades serem insuficientes para ratificar essa condição. No entanto, esta é uma afirmação resultante de uma observação simples e apenas assente na realidade fenomênica objetivada no encontro. Portanto, uma conclusão precisa acerca da idianidade desses povos só será possível mediante estudos mais profundos, que lancem mão de um criterioso rigor metodológico. O objetivo deste post é, nada obstante, refletir a cerca da luta travada por essas comunidades – uma dinâmica evidente no encontro – independentemente da corroboração científica da sua auto-afirmação enquanto povos indígenas, até por que, antes de qualquer elucubração cientificista sobre o tema – uma reflexão que sempre incorre no risco de gerar resultados positivistas, ou mesmo sociologias espontâneas, desnecessárias ao mérito da análise aqui pretendida -, o fato dessas comunidades terem se auto-identificado como aldeias indígenas já é válido para que a legitimidade dessa condição seja, ao menos, amplamente considerada.
Difícil é, entretanto, empreender esta análise sem a constatação de que os povos do CITA têm pela frente uma árdua batalha para o reconhecimento de sua cidadania especial. Essa dificuldade acontece em função da complexidade havida na identificação do caráter particular e diferenciado da condição indígena desses grupos humanos, vez que os elementos constituintes de sua cultura já foram, aparentemente, profundamente afetados pelo contato com a sociedade envolvente, sendo possível, até mesmo, afirmar que essas pessoas já encontram-se, de forma quase plena, absorvidas pelo mundo exterior e, consequentemente, apartadas daquilo que se poderia chamar de sua essência original – o elemento, que, por sinal, seria a causa para o tratamento distinto dessa população.
No encontro foi possível constatar, também, o conflito dialético instaurado entre os povos do CITA e o Estado - nesse contexto, representado pela FUNAI. De acordo com as lideranças presentes, esse órgão não tem promovido um trabalho satisfatório de assistência especializada desses indígenas, vez que estes ainda não são formalmente reconhecidos como tais. Estabeleceu-se, nada obstante, um confronto de interesses onde a luta pelo acesso às garantias previstas aos indígenas tem sido o mote principal. Nessa lógica, para o Governo Federal, a criação de mais terras indígenas implica em um processo de “engessamento” do desenvolvimento nacional, pois a efetivação desses direitos representa obstáculos para as incursões do projeto capitalista na Amazônia – um movimento que incide, principalmente, sobre as riquezas naturais dessa região.
Mesmo que a ciência ou a política não possam classificar essas comunidades enquanto aldeias indígenas, diante da miscigenação através da qual se conformaram esses assentamentos humanos, a luta pelo direito a terra - que nesse sentido é a mesma luta que se faz em busca da dignidade humana - em que eles estão imersos é legítima. A probabilidade da auto-afirmação dessas comunidades não ser reconhecida pelo mundo objetivo não apaga o fato de que elas representam as categorias sociais historicamente marginalizadas no Brasil, e, portanto, que são credoras das relações socioeconômicas estabelecidas nesse pais – uma dinâmica que propiciou a concentração de riquezas por meio da espoliação de etnias inteiras, das quais derivam a população alvo desta análise.
A política indigenista é fundamentada principalmente pela auto-afirmação dos povos, ou seja, a consciência de sua identidade indígena ou tribal é critério basilar para o tratamento distinto desses grupos. Não é possível, porém, descartar a hipótese de que esse critério tem servido como recurso que essas comunidades – e aqui incluem-se também as sociedades de cultura rústica tratadas por Arruda - estabelecidas em contextos econômicos acumulativistas, usam para sobreviver, não apenas no sentido abstrato, ou seja, no que se refere à manutenção da tradição (aspectos étnicos), mas, antes de tudo, no sentido material da existência. E nesse ponto, surge uma dinâmica muito complexa, onde os valores imiscuídos na luta indigenista merecem uma profunda reflexão. Sabe-se, porém, que a dialética havida na realidade do movimento indígena não deve ser tratada de forma meramente burocrática, caso contrário, qualquer possibilidade da promoção de justiça social junto a essas camadas sociais desfavorecidas seria arruinada, pois assim se reproduziria a lógica imposta pelo mundo moderno: uma lógica orientada pela inversão dos valores humanos, na qual o acúmulo da riqueza material subjaz o enaltecimento do espírito.

Fotos: Mazzile Tavares e Wyncla Paz.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Desencanto
O Sol está se pondo, mas eu tenho a sensação de que ele vai demorar mais que doze horas pra nascer novamente.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Uma poesia inútil
“Sem título”
Minha mão adormece
meu cérebro processa
aos calares infames do mundo
que deixa todos iguais: loucos!!
Se dizemos agora
calaremos depois.
Toda desculpa é uma facada nas costas.
Toda derrota é um fardo.
É tão simples e tão cego,
tão irreal e tão sincero,
tão normal é do meu ego,
é ilegal, mas eu te espero.!
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Nenhum dia é igual
A falta de sentido em tudo era tão evidente que nada me atraía atenção. Acordava todas as manhãs pensando que tinha acordado num mundo completamente diferente de onde eu havia dormido. Mas depois de alguns segundos ouvindo os pássaros, a minha irmã conversando com a mãe e então eu percebia que eu não estava em outro mundo e tudo voltava ao normal.
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